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(memórias do show
realizado na Quinta da Boa Vista, RJ, no dia 24/10/93)

O que parecia impossível, aconteceu.
Lá estava eu, de frente para ninguém
menos que George Martin, o homem que burilou o som do maior conjunto
musical de todos os tempos, The Beatles.
Tudo por causa de entrevista que havíamos
agendado, por intermédio da gravadora EMI, que seria o prefácio
de nosso livro Os Anos da Beatlemania.
Duas perguntas, que praticamente encerravam a
entrevista, foram o ponto de partida para concretizar um grande
sonho: trazer George Martin ao Brasil.
Você já esteve no Brasil?
Não, eu sinto muito - por favor, me
desculpem! Já fui ao Chile, cheguei até a passar pelo
Brasil. Não sabia que "Pepperland" tinha sido regravada
por um guitarrista brasileiro para a trilha sonora de uma novela.
Gostaria de ouvir o disco (O guitarrista
em questão era Robertinho de Recife e a versão, "No
Mundo dos Sonhos", fez parte da novela "Pantanal").
Mesmo? Então nós vamos
lhe enviar o disco!
Pode lhes parecer estranho o fato de eu nunca
ter ido ao Brasil, mas nunca tive motivos para ir lá. Quase
fui ao Rio, quando Paul fez os dois concertos na cidade. Mas, estava
tão ocupado naquela época, e a brincadeira me sairia
tão cara, que eu acabei não indo.
Após o lançamento do livro, contatamos
Robertinho de Recife e contamos a conversa que tivemos com George
Martin, e que iríamos enviar o disco dele. Nesta conversa
surgiu a idéia do concerto, com Martin regendo a Orquestra
Sinfônica Brasileira, junto com um grupo de rock, tocando
as músicas dos Beatles, segundo os arranjos feitos por ele.
Os primeiros meses de 1993 foram dedicados a
negociações com a direção do Projeto
Aquarius, que comungava do desejo de trazer o famoso maestro e produtor.
Uma fita de vídeo com a história
do Aquarius e seus principais eventos foi especialmente preparada
e enviada à Londres, junto com um dado que sensibilizou George
Martin: O Projeto Aquarius sempre foi um evento gratuito, popular,
atraindo dezenas de milhares de pessoas, normalmente nos jardins
da Quinta da Boa Vista.
Com a simpatia que George Martin nutria por nós,
aliada à possibilidade de fazer o concerto de sua vida, sua
resposta foi positiva. O projeto inicial previa um grupo de rock,
com nomes a serem escolhidos, e um coral, que seria o Garganta Profunda,
por seu trabalho recente com músicas dos Beatles. Ao longo
das negociações, ficou acertado que o Coral de Petrópolis
e as Meninas Cantoras de Petrópolis ficariam no projeto,
no lugar do Garganta.
No dia 15 de outubro de 1993, um vôo da
Varig trazia George Martin, sua esposa Judy, seu filho Giles (que
além de assistente do pai, iria tocar na banda), sua filha
Lucy e seu sócio, o também produtor John Burgess.
Eu estava no mesmo vôo. Na escala em São Paulo fui
dar as boas vindas, em nome de todos os brasileiros.
Tivemos
o fim-de-semana livre para um belo passeio de barco pela orla do
Rio de Janeiro.
Como George Martin possuía um iate, ele
logo estava no comando, levando todos até as ilhas Cagarras,
onde um banho de mar foi desfrutado por seus filhos e alguns membros
do staff a bordo. Quando passávamos em frente à Ipanema
tirei aquela que seria uma das mais belas fotos de George Martin
no Rio. Esta foto foi pirateada e enviada para revistas no exterior,
tal a sua beleza.
Começa a semana e os ensaios também.
Primeiro, no auditório do jornal O Globo, trabalhos entre
os Corais e o Grupo de Rock, formado por Robertinho de Recife (guitarra-solo e violão), Giles Martin (guitarra-ritmo e violão),
Mauro Senise (sax), Fernando Moura (teclados), Jamil Joanes (baixo),
Ricardo Magno (vocais), Carlos Bala (bateria), mais os percussionistas
Peninha, Chacal, Cezinha e Cizinho.
Todas as músicas foram passadas e George
Martin ficou encantado com os dois corais. Esta admiração
levou-o, anos mais tarde, a convidá-los a participar de uma das
faixas de seu LP de despedida. Outro que chamou sua atenção
foi Robertinho de Recife.
Em seguida, os ensaios foram deslocados para a
Sala Cecília Meireles, onde o Grupo de Rock tocou junto com
a Orquestra Sinfônica Brasileira.
As fotos mostram a Orquestra e o Grupo com George
Martin, a atenção do maestro com os detalhes de cada
arranjo, a total interação entre a Orquestra e os
músicos do Grupo e os dois guitarristas em detalhe.
Na sexta-feira, dia 22, os ensaios foram realizados
no palco da Quinta da Boa Vista, com todos os músicos e cantores
reunidos pela primeira vez . Mas o imprevisto aconteceu: a chuva impediu
que os músicos da Orquestra Sinfônica ficassem em suas
posições, sob o risco de perderem seus instrumentos.
Um novo ensaio aconteceu no sábado,dia 23, véspera
do show. George Martin pode finalmente reger todos, numa bela prévia
do que seria o espetáculo. Foi um momento mágico, ver
o homem que lapidou o som dos Beatles ali, na Quinta da Boa Vista.
Belos momentos desta noite de sábado foram
preservados, como Giles Martin bem à vontade, ou discutindo
uma passagem com Robertinho de Recife. Ou mesmo aguardando o momento
de colocar seu violão em ação. Em seguida,
Robertinho de Recife deu um show à parte durante o meddley
Carry That Weight / The End, com solos que encantaram todos os presentes
no ensaio. Tudo estava perfeito para o dia seguinte.
Tudo?
No domingo, dia 24, eram aguardadas cerca de
100 mil pessoas nos jardins da Quinta da Boa Vista. Mas uma chuva
torrencial desabou sobre o Rio de Janeiro, levando a acreditar que
o concerto seria cancelado.
Uma multidão estimada em 20 mil pessoas
resistiu enquanto a produção improvisou coberturas
para o Grupo de Rock. Os dois Corais ficaram na chuva, enquanto
que a Orquestra Sinfônica Brasileira teve que se retirar.
O que se viu então foi inesquecível: um George Martin
tão entusiasmado, que recusou a proteção contra
a chuva que lhe ofereciam. Todos os arranjos foram adaptados para
suprir a falta da Orquestra.
Um vídeo enviado por Paul McCartney especialmente
para o evento foi exibido, onde ele conversava com George Martin
e o público. Foi uma apoteose.
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Após o show, fomos confraternizar
em uma churrascaria, colhendo os louros de uma tarde/noite
memorável. Durante estes momentos de relaxamento, George
escreveu uma bela mensagem em meu programa:
Ricardo, you started this thing! Congratulations
+ love. George Martin.
Outro ponto marcante para George
Martin foi o encontro que promovemos entre ele e Tom Jobim,
antes de deixar o Rio de Janeiro. Na foto, tirada por um fotógrafo
do jornal que patrocinava o evento, estamos eu, George Martin,
Tom Jobim e meu ex-parceiro na empreitada, Marcelo José
Froes.
Ao retornar à Inglaterra, recebi
uma carta de George Martin, onde ele expressou toda sua gratidão
por estes momentos inesquecíveis.
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Acredito que todos os que estiveram envolvidos
com aquele show jamais irão esquecer a simpatia e simplicidade
de George Martin, o homem que deu forma ao som do maior grupo musical
do mundo, The Beatles.
Momentos para recordar por toda a vida. E farei
isso.
Ricardo Pugialli.
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