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Quando
estávamos em Londres, para 13 dias de contatos, entrevistas
e preparação das fotos inéditas para o livro,
recebemos a notícia de que o produtor George Martin não
poderia nos receber. Um fax enviado dos escritórios da EMI
inglesa, explicando detalhadamente os objetivos do livro e sua importância
para os leitores brasileiros, acabou por convencer este que é
o produtor mais famoso do mundo.
Com uma simplicidade e humildade impressionantes,
ele veio calmamente caminhando até nosso hotel, onde conversamos
sobre diversos assuntos, alguns polêmicos.
Estes são os melhores trechos desta entrevista,
publicada originalmente como prefácio dos Anos da Beatlemania.

Nós sempre ouvimos
e lemos a respeito da influência dos Beatles sobre todos e em
todos os tempos e setores. Em que os Beatles lhe influenciaram? Podemos
verificar que você nunca modificou sua aparência por causa
deles. Em que parte de sua vida eles influenciaram, além de
tê-lo feito trocar o dia pela noite nas sessões de gravação?
(Risos) - Bem, na verdade eu tenho
usado o cabelo bem mais comprido, desde então!
Eu acho que o grande empurrão que recebi
deles foi ter-me tornado capaz de realizar aventuras musicais, coisas
que eu não poderia ter feito sem eles. Em outras palavras,
quando eu trabalhava para a EMI, não me pagavam muito bem,
mas quando os Beatles conquistaram a fama, eles trouxeram enorme poder,
e eu passei a comandar os estúdios de Abbey Road.
Os estúdios eram o meu lar, e só para
você ter uma idéia, lá ficava o meu escritório.
Eu conhecia todo mundo nos estúdios. E ainda
conheço. Todos eram meus amigos, e o poder dos Beatles me deu
a possibilidade de assumir riscos. Esta foi a grande influência
deles, liberando minhas inovações artísticas.
Você acha que toda a sua criatividade
foi explorada enquanto trabalhava com os Beatles? Ou você sentiu
que faltava fazer algo quando eles se separaram? Você tinha
algum plano para com eles?
Oh, não, de jeito algum. Eu
acho que, na verdade, tivemos muita sorte por termos durado por tanto
tempo! Só fiquei um pouco decepcionado depois de "Pepper",
porque ele inaugurou uma nova fase de gravações, e eu
achava que aquilo nos levaria a algo mais longe ainda.
Não nos levou, e por três razões:
John jamais gostou de ser organizado, era bem mais um lutador pelas
liberdades, e gostava de fazer suas próprias coisas.
Ele era bem mais voltado para o "rock and roll";
Paul gostava da idéia de juntar o clássico ao popular,
mas ele também estava ficando cada vez mais interessado em
"avant garde", preferia ver as coisas acontecerem, ao invés
de fazê-las acontecer, e acabamos entrando num período
bastante chato, no qual o que fazíamos não parecia soar
bem.
Era como fazer macacos escreverem como Shakespeare;
e porque as coisas não melhoraram até "Abbey Road".
Eu tive nova chance de unir o clássico ao popular num dos lados
do disco, e aquilo me parecia como o embrião de algo, mas John
não gostou. Ele só queria saber das suas faixas no disco,
o resto não importava. Aquelas foram as últimas gravações
que fizemos.
Depois disso, nós todos mantivemos nossas
amizades, apesar de John ter entrado num período muito difícil
com as drogas, e dito coisas desagradáveis sobre todo mundo.
Ele deixou tudo isso para trás. Estive com ele, em Nova Iorque,
cerca de um ano antes de sua morte.
Passamos uma noite muito agradável, lembrando
muitas coisas. Na verdade, ele me disse que se tivesse a chance, regravaria
tudo o que já tinha feito, de uma nova maneira.
E foi provavelmente por isso que ele nunca conseguiu
passar suas abstrações para a música concreta,
tornando-se um frustrado. Ele não era um homem prático,
nunca realmente conseguiu fazer o que queria.
Mudando de assunto, o que aconteceu durante
o projeto "Get Back"?
John foi realmente o problema,
estava ficando cada vez mais difícil. Yoko o estava puxando
para longe do grupo, e ele estava tomando mais e mais drogas. Ela
teve, sem dúvida alguma, uma grande parcela de culpa nisto.
Ele chegou a dizer-me que não usaria os serviços de
Geoff Emerick, queria um engenheiro diferente, preferindo Glyn Johns.
Nós concordamos neste ponto, e ele acabou
dizendo que não queria sequer a minha produção
naquele disco. Eu perguntei: "o que você quer dizer com
isto?" Ele me disse: "tudo o que gravarmos, será
feito ao vivo, e será verdadeiro e honesto - nós não
vamos disfarçar nada!" Então, eu concluí:
"quer dizer que vocês vão fazer uma apresentação
ao vivo?" Ele me disse: "sim", e eu então perguntei:
"vocês não vão alterar ou editar nada?"
- "não"!!!"
Bem, OK, tudo certo... mas ele ainda veio com esta:
"e tem mais: nós queremos gravá-lo em nossos estúdios,
lá em Saville Row".
Os estúdios da Apple, idealizados pelo "mágico"
Alex, eram inoperantes e impossíveis de se trabalhar. Não
havia sequer furos na parede para que se pudesse passar os cabos da
sala de controle para o estúdio! Eu equipei o estúdio
da Apple com gravadores e mesas, emprestados da EMI. Começamos
a trabalhar, e eles ensaiaram bastante, mas as gravações
nunca alcançavam um nível satisfatório. Eles
persistiram na perfeição, mas nenhuma edição
de "takes" poderia ser feita. A coisas acabou ficando muito,
muito chata, mas as músicas eram boas.
No final de cada dia, nós tínhamos
uma série de gravações não tão
perfeitas, mas que para mim já representavam um bom começo.
O caso é que eu não tinha autorização
para editá-las, e eles acabaram fazendo o concerto no terraço,
e fim-de-linha!
A coisa começara com uma
boa idéia de Paul: eles escreveriam as músicas do
novo disco, as ensaiariam e as apresentariam ao vivo, transformando
a gravação deste show no disco final. Mas no meio
do inverno, não tínhamos lugar para realizar o show,
e começamos os ensaios nos estúdios Twickenham. O
tempo todo, tivemos atritos entre John e o resto do grupo, e a verdade
é que um belo dia, John e George chegaram às vias
de fato, trocando agressões recíprocas.
Foi um período muito infeliz, achei que
aquilo seria o fim. Fiquei muito desencantado, e não acreditava
que poderíamos fazer muito mais.
No final de tudo, acabaram me incumbindo de colocar
aquilo tudo num disco. A única maneira que encontrei, depois
de debater o assunto com Glyn Johns, foi montar as fitas como um
documentário, incluindo diálogos e até erros,
mas sempre escolhendo o melhor possível. Não disfarcei
nada, mas tive que editar algumas coisas para criar uma forma original
para o disco.
A EMI e a Apple ouviram o resultado, mas os rapazes
resolveram dar um tempo e não mais lançá-lo.
Então, Paul veio até mim e disse que eles queriam
fazer um disco de verdade, como nos velhos tempos. Quando nós
fizemos "Abbey Road", eu não acreditava que eles
pudessem conseguí-lo, mas eles o fizeram, e eu fiquei bastante
surpreso.
Fizemos o "Abbey Road", correu tudo
bem, e aquilo foi realmente o fim de tudo. Eu não acreditava
que algo mais pudesse acontecer, até que Paul me ligou e
disse que John tinha levado as fitas de "Let It Be" para
a América, para que alguém fizesse alguma coisa delas.
Mal pude acreditar quando ele ainda me disse que Phil Spector faria
um outro disco daquelas fitas. Paul ficou muito chateado com aquilo
- sua "Long And Winding Road" recebeu orquestra e coral. Ele detestou, e eu também. Foi John quem
fez aquilo, e a música nem era dele! Para piorar, no final
de tudo, John e Yoko disseram que o meu nome não deveria
constar dos créditos no disco, pois eu não o produzira.
A EMI me contou a novidade, mas respondi dizendo que tinha um contrato
com o grupo, além de ter efetivamente produzido o disco original.
Eu disse que deveria receber os créditos
de produtor, e os de super-produção ficariam para
Phil Spector. Eles não o fizeram.
Você já esteve no Brasil?
Não, eu sinto muito - por favor, me
desculpem! Já fui ao Chile, cheguei até a passar pelo
Brasil. Não sabia que "Pepperland"
tinha sido regravada por um guitarrista brasileiro para a trilha
sonora de uma novela. Gostaria de ouvir o disco (O
guitarrista em questão era Robertinho de Recife e a versão "No Mundo dos Sonhos", fez parte da novela "Pantanal")
,
Mesmo? Então nós vamos lhe
enviar o disco!
Pode lhes parecer estranho o fato de eu nunca
ter ido ao Brasil, mas nunca tive motivos para ir lá. Quase
fui ao Rio, quando Paul fez os dois concertos na cidade. Mas, estava
tão ocupado naquela época, e a brincadeira me sairia
tão cara, que eu acabei não indo.
Não só presenteamos o maestro George
Martin com o disco de Robertinho de Recife, como também iniciamos
as negociações para um grande sonho: a sua vinda ao
Brasil, dentro do Projeto Aquarius, regendo seus arranjos para as
músicas dos Beatles. |