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Entrevista com Derek Taylor - Melhores Momentos

Ainda durante os 13 dias de contatos, entrevistas e preparação das fotos inéditas para o livro "Os Anos da Beatlemania", em Londres, tivemos a rara oportunidade de entrevistar o jornalista musical Derek Taylor, amigo pessoal dos quatro Beatles, especialmente de George. Ele acompanhou a carreira do grupo de 1964 até 1971, atuando como relações públicas da Apple Corps.
Nosso encontro foi nos escritórios da EMI, em Manchester Square. Com a volta às atividades da Apple, ele estava com o tempo contado, podendo nos conceder 40 minutos de conversa, entre sua visita ao dentista e uma reunião com Neil Aspinal. 

De Junho de 1993 até Janeiro de 1994, quando morei na Inglaterra, eu mantive contatos mensais com Derek, sempre às sextas-feiras, na Apple. Guardo com muito carinho todos os momentos que passei com ele, o bolinho improvisado pelo meu aniversário, planos, conversas sobre o futuro, músicas e fotos inéditas, papos com Neil Aspinal, a presença de Ringo e George em minha última visita, agendada neste fax, o último que Derek me enviou durante o período que vivi em Reading.

Veja o fax aqui

Entre o lançamento do disco Beatles At The Beeb e a série Anthology, ainda trocamos mais alguns faxes e telefonemas. Mas os planos não iriam se concretizar...

Veja o fax aqui
 

No dia 7 de Setembro de 1997, ele faleceu em sua casa, dormindo, após lutar bravamente contra um câncer de garganta. 

Estes são os melhores trechos desta entrevista, que seria publicada no segundo volume da trilogia inédita, cujo título seria Quatro Caminhos.





   Onde é que fica o "pause", caso eu diga algo muito indiscreto? OK! Bem, quando vocês se apresentam como um advogado e um biólogo, isto é tudo ou vocês são também admiradores dos Beatles, entusiasmados com a idéia de escrever um livro?

Sim, nós já tivemos experiências anteriores. Eu escrevi um livro sobre "Direito Autoral", e ele tem um livro sobre "Aquarismo". Obviamente, somos grandes fãs dos Beatles, e temos pesquisado o assunto por mais de uma década. Sempre lamentamos muito não termos um livro brasileiro sobre a carreira do grupo, quando éramos bem novos. Assim sendo, sabemos muito bem como os "novatos" sentem-se a respeito. Nossa língua é o Português, e poucos tem a oportunidade de aprender o Inglês, além de pouquíssimos poderem adquirir os bons livros importados, por serem muito caros. Nós sempre desejamos fazer algo com o nosso material, pois formamos uma vasta biblioteca e já dá para distinguir os bons livros dos ruins. Estamos querendo fazer algo sobre a carreira deles, basicamente...

Sim, muito bom... sobre a carreira deles, como Beatles?

Sim, mas gostaríamos de estender o trabalho até as carreiras individuais, até os dias de hoje. Contatamos uma ótima editora, e no início eles temeram pela pouca demanda. Mas acabamos buscando o apoio da EMI-Odeon, e eles acabaram nos enviando aqui, custeando passagens e hospedagem. Estamos contatando fontes confiáveis, mas recebemos um "não" do Richard Ogden (MPL), além do silêncio da parte do George. Sabemos que eles evitam qualquer envolvimento com livros biográficos, mas nossa idéia não é buscar qualquer nova informação sobre a carreira deles, pois os bons livros já nos dizem tudo o que precisamos saber. Gostaríamos que eles nos dissessem coisas de interesse para o público latino-americano, aproveitando a oportunidade... mas sabemos que, ao mesmo tempo, isto também espelha uma desculpa para promover o nosso trabalho. Mas nosso trabalho virá até as carreiras-solo, e é por isso que gostaríamos de entrevistá-los. O George pouco fala sobre os seus discos. Na verdade, ele não fez promoção alguma para certos discos lançados pela Warner, como o "Gone Troppo", por exemplo.

É, mas desta vez ele deu um bocado de entrevistas para promover o disco ao vivo. Acabou de fazê-las lá no Havaí. Vocês já têm o novo disco? Ele tem feito muita promoção em cima deste.

Infelizmente, parece que poucos estão gostando da capa. Nós achamos que ficou muito pobre, e que eles poderiam ter feito algo melhor.

Eu ainda não vi a capa, ainda não (mostramos a capa do CD). Eu tenho que concordar com vocês! (risos) Então esta é a capa? É pouco comum, não é? O George é um cara muito saudável. Não come besteira, não fuma, não bebe. Acredito que ele deva estar muito bem.



  Você acha que os Beatles tornaram-se protegidos da Coroa depois de terem recebido os MBEs, para que não fossem molestados pelas autoridades, por causa das drogas?
Eu acho que não, por que não creio que alguém quisesse perturbá-los! É por isso que creio que eles não precisavam de qualquer tipo de proteção...
Estamos te perguntando isso porque eles só começaram a ter este tipo de problemas depois que o Paul anunciou ter tomado LSD.
Aquilo foi em 1967, não foi? Bem, até então não houvera motivos para se achar que os Beatles estivessem fazendo algo errado com drogas. Quero dizer, não havia como alguém saber.
O caso é que parece que o George estava presente naquela festa na qual Mick e Keith foram presos, mas ele saiu cinco minutos antes da chegada da polícia.
Bem, ele não saiu da festa cinco minutos antes da polícia chegar. A verdadeira história é a de que a polícia não quis invadir a casa até que ele tivesse partido. Não é isso? Existe uma diferença! (risos) Em outras palavras, eles não quiseram meter-se com os Beatles, porque eles eram especiais. Isto nada tem a ver com os MBEs, e sim com o fato deles serem símbolos da nação, coisa que os Rolling Stones nunca foram. Depois de Paul ter feito aquele anúncio sobre o LSD, eles tornaram-se naturalmente vulneráveis...
... e aí o John começou a fazer loucuras com a Yoko....
Isso foi cerca de oito meses depois. Bem, o MBE aconteceu em 1965, e o LSD em 1967, mas em 1966 tínhamos enfrentado o problema com Jesus Cristo. Assim sendo, os Beatles começaram a estragar a imagem inatingível muito antes de 1967, mas os ingleses sempre preferiram acreditar que nada estragaria a integridade dos Beatles deles. Na verdade, eu acho que eles ainda tendem a criar e manter a imagem que lhes convém, e pelo que sei  os Beatles ainda representam os bons tempos, os bons tempos felizes. Embora John tenha morrido há doze anos, ele continua vivo em termos de Beatles, de uma forma abstrata. Os Beatles continuam a salvo, ao que parece...
Quando é que você percebeu que eles estava chegando ao fim?
Durante o filme "Let It Be".
É mesmo? No início de 1969?
Eles já não estavam tão felizes.
Sim, mas eles ainda fizeram o "Abbey Road".
É, eles o fizeram.
Muito obrigado! Você já esteve no Brasil?
Não, mas tenho muita vontade de ir até lá. O meu filho já esteve lá duas vezes, e trabalha com capoeira. Ele esteve em São Paulo, e agora abriu a primeira academia de capoeira aqui de Londres, com sua namorada. E é por isso que sei tudo o que se passa por lá!

 

Derek Taylor foi muito mais do que um simples porta-voz. Era um amigo. Todos os discos e vídeos da nova fase da Apple, com destaque para o Live At The Beeb e a série Anthology, trouxeram belos textos dele, um dos poucos, além de Neil Aspinall, a estar dentro do "olho do furacão" que foi o grupo The Beatles.