Começava assim a “Confusão na Pista de Dança” ou Ballroom
Blitz, o hino do glitter rock na voz de Brian Connolly,
mais o baixo e segundo vocal de Steve Priest, a guitarra e vocais
em falsete de Andy Scott, e bateria e vocais igualmente em falsete
de Mick Tucker, “the best fuckin' drummer in the world”, como
preferem os fãs da banda.
Esqueça o Slade, David “Ziggy Stardust”
Bowie, Gary Glitter, Marc Bolan, Brian Ferry ou Suzi Quatro.
Se alguém encarnou o Glitter Rock, este alguém foi o grupo Sweet.
De promissora banda pop, com sucessos na Inglaterra, Europa, América do
Sul e Ásia, este grupo inglês surpreendeu o mundo aparecendo no “Top
Of The Pops”, da BBC1, travestidos, maquiados, purpurinados, afeminados,
cantando em falsete e levando as meninas ao delírio. Hot pants agora não eram mais exclusividade feminina. Que o diga Steve Priest.
E ele diz isso e muito mais, na primeira entrevista que um
membro do Sweet concede para o Brasil, desde sua estréia,
em 1968! Uma exclusividade para o SenhorF. Com o recente
falecimento do baterista original do grupo, Mick Tucker, em
14 de Fevereiro, devido à complicações de sua leucemia, não toquei no
assunto com Steve. Ele era muito chegado ao amigo e ficou
muito abalado. Por coincidência, estávamos falando sobre Mick nas semanas anteriores ao ocorrido.
Dono de uma bela voz, ele dividia os vocais com Brian Connolly no
grupo, além de contribuir com um belo trabalho de baixo, fraseados,
melodias, solos, tudo para acompanhar o baterista mais foda do mundo.
Aproveitem esta rara oportunidade de
conhecer detalhes da história do grupo contados pelo mais controverso e,
ao mesmo tempo, mais sensato membro do Sweet!
Senhor F - Steve, nesta
primeira entrevista de um membro do Sweet para o Brasil, eu
gostaria de começar perguntando o que a palavra Brasil traz para você,
assim de primeira? Você já escutou nossa música?
Steve Priest: Eu
amo a idéia de visitar o Brasil um dia. Tive contato recentemente com a música
Latina e gostei de verdade. Quero colocar uma faixa em meu novo CD com
este “sentimento”.
Senhor F - Vocês
naturalmente sabiam do sucesso de Co-Co e Poppa Joe em
lugares como Ásia e Europa, em 1971-72. Mas você sabia que elas tocaram
bastante nas rádios brasileiras no início dos anos 70? Qual a idéia que
vocês tinham do alcance de sua música pelo mundo?
Steve Priest - Sim,
eu sabia vagamente do sucesso, mas nós nunca pudemos excursionar por
estes países. Mau gerenciamento por parte de nossos empresários, como
sempre.
Senhor F - Quando vocês
decidiram tocar nos lados A de seus compactos, em 1973, vocês também
pensaram na mudança da imagem ou foi “sugestão” de Batman e Robin (apelido que Steve deu para a dupla de compositores Mike Chapman e Nicky
Chinn, que controlava a carreira do grupo)?
Steve Priest - Na
verdade foi Chapman que falou com Chinn e Wainman (Phil, o produtor
dos discos do grupo) sobre tocarmos nos lados A. Tivemos que regravar a
base de “Little Willy” para a “Musicians Union” antes de tocar no
“Top Of The Pops”. Quando Chapman escutou o que fizemos, ele quis que
tocássemos nos lados A desde então.
Senhor F - O Slade,
por exemplo, tinha uma estratégia muito bem planejada para seus
compactos, recordes a serem batidos, etc. Como o Sweet planejava
seus lançamentos? As paradas de sucesso eram um objetivo ou uma conseqüência?
Steve Priest - Acho
que a estratégia era toda de “Ratman e Bobbin”, quero dizer Chann e
Chipman. Eles queriam ser estrelas e nos usaram.
Senhor F - O Sweet tornou-se
um grupo mais pesado logo após o lançamento do compacto Wig Wam Bam,
em 1973. Vocês estavam preparados para o “monstro” criado com aquele
novo som e imagem?
Steve Priest - Nós
sempre fomos uma banda que soava pesado. O lance do “Glam” veio por
causa do “Top Of The Pops” e de como todos estavam ficando estúpidos
na época.
Senhor F - O LP “Sweet
Fanny Adams”, lançado em 1974, era um disco de hard rock,
bem diferente dos compactos do período 71-72. E muitos grupos regravaram
músicas deste disco. Uma das mais recentes foi Set Me Free, lançada
no disco de estréia do ESP (grupo formado pelos ex-KISS Eric Singer e
Bruce Kulick). Como você se sente a respeito da influência sobre tantos
grupos ao longo destes anos? Você esperava por isso?
Steve Priest - Eu
fico lisonjeado quando alguém regrava uma de nossas músicas. Eu também
estou bem consciente de nossas influências em outras bandas.
Senhor F - Lendo sua
biografia e as reportagens publicadas ao longo dos anos, notamos que vocês
sempre tinham problemas com o equipamento durante as turnês. Você acha
que isso pode ter afetado a credibilidade do grupo como músicos ao vivo?
Steve Priest - Nosso
maior problema foi quando “Brian” foi atacado e chutado na garganta. E
nossos críticos deitaram e rolaram quando nosso equipamento pifou.
Senhor F - Além do
fato do Queen ter surgido cantando no mesmo estilo que o Sweet já
fazia à cinco anos, vocês tiveram mais alguma “fricção” com os
grupos daquele período ou havia uma “camaradagem” entre vocês (Bowie e seus Spiders, Slade, Status Quo, Marc Bolan, Suzi Quatro,
etc)?
Steve Priest - Nós
nunca tivemos muito contato com outras bandas naquela época.
Senhor F - O LP “Desolation
Boulevard”, também de 1974, foi igualmente um disco de heavy
rock, mas encontramos baladas como Lady Starlight e The
Six-Teens. Neste disco temos uma versão pesada de Fox On The Run.
O que levou vocês a escolherem esta canção para o próximo compacto
(lançado em 1975), e como vocês trabalharam na nova versão, cheia de
sintetizadores?
Steve Priest - Chinn
e Chapman estavam tão “exaustos” que perderam o rumo, nos deixando
sem um novo compacto depois do “The Six-Teens”. Decidimos encurtar
“Fox” e lança-la.
Senhor F - Este disco
marcou também o fim do período “Glitter” do Sweet,
certo? Isto foi planejado ou as coisas estavam mudando naturalmente?
Steve Priest - Nós
nunca fomos uma banda “glitter” ou “glam” realmente. Mas
naturalmente é como somos lembrados. Foi um curto período na vida do
grupo, e foi mais para “Monty Python” do que para “Gary Glitter”.
Senhor F - “Action”, o segundo compacto de 1975, foi um bom exemplo da direção que o
grupo estava indo, como produtores e artistas. Ela foi um grito contra os
críticos, aproveitadores, detratores ou mesmo contra o vampirismo da “Chinebridge” (a empresa formada por Mike Chapman., Nicky Chinn e Phil Wainman)?
Steve Priest - Sim,
foi contra todos eles. Eu estava muito irritado que David Walker (o
empresário do grupo) e todos os outros tinham belos escritórios e eu
tinha praticamente nada! Bom, eu ainda estou aqui com três adoráveis
crianças, sacou?
Senhor F - Apesar do LP “Off The Record”, de 1977, ter sido gravado apenas para
finalizar o contrato com a RCA, ele era muito bom. Seu baixo está mais
melódico, assim como Mick estava “batendo pra cacete”. Muitas
músicas tinham grande potencial para shows, mas vocês não excursionaram
em 1977. Por que?
Steve Priest - Para
falar a verdade eu não sei o que aconteceu. Excursionamos um pouco, mas o
disco nunca decolou.
Senhor F - Sabemos que
as drogas estavam desempenhando um importante papel em suas vidas naquele
momento. Como elas influenciaram os projetos passados e futuros?
Steve Priest - Elas
com certeza não são parte de minha vida agora e não o são por muitos
anos. Elas com certeza NÃO ajudaram naquele momento, apesar de acharmos
que sim.
Senhor F - O Punk estava
acontecendo na Inglaterra. Como você os via naqueles dias?
Steve Priest - Eu
acho que nós começamos a atitude punk! O problema é que eles eram mais
jovens e mais violentos.
Senhor F - O próximo
LP, “Level Headed”, de 1978, foi na minha opinião seu melhor
disco como músicos. Mas foi outra mudança em seu estilo. Vocês estavam
procurando um estilo definitivo ou as mudanças eram naturais?
Steve Priest - Naquela
época não tínhamos a mínima idéia para onde ir musicalmente. Tínhamos
que agradar os empresários e as gravadoras. Impossível.
Senhor F - Você
concorda que com este disco o Sweet estava pronto para o sucesso
definitivo nos Estados Unidos, se não fossem os problemas de saúde de Brian?
Steve Priest - Eu
acho que foi mais do que isso. Se nós tivéssemos ficado mais tempo
excursionando por lá teria sido fantástico. Também devíamos ter
aparecido mais na TV. O David Walker tinha medo de nos perder se fizéssemos
sucesso nos Estados Unidos, e Andy queria o Brian fora da banda.
Senhor F - Como você
recebia as críticas ao disco e o esforço perdido na sua promoção, por
causa da “ausência” de Brian?
Steve Priest - Eu
nunca leio os que os críticos falam e nunca o fiz
Senhor F - Foi difícil
pedir para o Brian deixar o grupo e cuidar de sua saúde? Vocês
esperavam tê-lo de volta?
Steve Priest - Foi
decisão dele sair.
Senhor F - Nesta época
nós nunca mais ouvimos falar do Sweet no Brasil. Nenhuma notícia,
reportagens, até mesmo lançamentos. Para nós, o Sweet havia
acabado. Vocês pensaram em acabar com o grupo?
Steve Priest - O
Sweet acabaria oficialmente em 1981
Senhor F - Mas o Sweet seguiu em frente, lançando mais um disco, “Cut Above
The Rest”, em 1979. Agora você era o cantor principal. Você
acredita que os problemas pessoais pelos quais você e Andy estavam
passando atrapalharam os trabalhos?
Steve Priest - Não
totalmente. Eu acredito que nós escrevemos algumas de nossas melhores canções.
Nossos problemas vieram depois.
Senhor F - Ao contrário
do passado, agora vocês eram acusados de estarem copiando o Queen neste
disco. Você concorda com estas críticas?
Steve Priest - Como
podíamos estar copiando o Queen se viemos primeiro?
Senhor F - E chegaram
os anos 80 e o Sweet lançou mais um LP, “Waters Edge”.
O que você acha daquele disco? Eu sei que você odeia “Sixties Man”, como música e como vídeo promocional. É engraçado, porque muitos fãs
gostam da música.
Steve Priest - Eu
odiei aquela música na época e não agüento escutá-la hoje.
Senhor F - Foi difícil
entrar numa nova década com uma posição tão diferente nas paradas?
Este disco poderia ter sido chamado “O Canto do Cisne do Sweet”?
Steve Priest - Sim,
eu acho que aquilo foi o fim.
Senhor F - Você disse
que uma platéia de 1.500 pessoas, na Inglaterra, era boa na época. Vocês
ainda tinham este público nos shows por lá? E nos Estados Unidos?
Steve Priest - Nós
tínhamos audiências maiores do que essa na Europa e Inglaterra. Quando
excursionamos com “Seger” (Bob Seger. O Sweet abriu os
shows dele nos Estados Unidos, em 1978), nós ajudamos a trazer metade
das 30 mil pessoas que iam aos shows.
Senhor F - Mas vocês
foram em frente e, em 1982, lançaram um LP apenas na Alemanha, “Identity
Crisis”. Aquilo foi o fim, certo? Como o comportamento de Andy contribuiu
para sua decisão de deixar o grupo?
Steve Priest - Não
foi apenas Andy que fez a banda acabar. Chegou o fim.
Senhor F - De 1984 até
hoje Andy ainda está tocando com seu Sweet,
assim como Brian também teve seu Sweet, até 1997, quando faleceu. Como você viu o trabalho deles com o nome Sweet ao longo destes anos?
Steve Priest - Não, o
Andy teve carreira solo até 1985, quando me perguntou se eu queria me
juntar a ele e Mick para fazer uma turnê na Austrália. Eu recusei já
que me pareceu trabalho escravo
Senhor F - Escutando as fitas da reunião da formação original, em
1988, podemos entender porque o projeto não seguiu adiante. Brian ainda estava em má forma. E na gravação de “Ballroom Blitz” temos
algumas “adoráveis” mudanças na letra da famosa introdução. Você
mudou seu “Uh-huh” para “Fuck off”
e Mick foi de “Okay” para “Suck cocks in
hell”. Estas frases foram
endereçadas para Brian? Você pode falar mais destas gravações?
Steve Priest - Não, não
era nada pessoal, estávamos apenas nos divertindo.
Senhor F - Desde que você deixou o Sweet, em 1982, não
ouvimos mais falar de nenhuma atividade fonografia de sua parte. Mas
existe um CD pirata, “First
Takes and Outtakes”, com 6
demos suas. Quando elas foram gravadas e o que você tem feito todos estes
anos?
Steve Priest - Eu as
gravei poucos anos atrás. Compus várias músicas com “Marco Delamar”
e cheguei a fundar uma banda chamada “The Allies”.
Senhor F - Você tocou no “Benefit
Concert for the Twin Towers Orphan Fund”, que aconteceu dia 28 de Dezembro de 2001, em Los Angeles. Quem
planejou o evento e como foi sua participação?
Steve Priest - Eu
realmente não sei quem organizou tudo. Perguntaram-me se eu estava
interessado e é claro que eu estava.
Senhor F - Durante o período que você esteve no grupo, você pode
explorar toda a sua criatividade, ou ficou faltando fazer algo?
Steve Priest - Não
acredito que tenhamos chegado perto do potencial que estava dentro de nós.
Muito controle, muitos negócios
e maus contratos.
Senhor F - Agora, passados 34 anos do início da
banda, vocês têm fãs dos 6 aos 50 anos. Olhando para trás, como você
resumiria sua contribuição para a música?
Steve Priest - Eu acho
que o fato de nossas músicas ainda serem usadas em filmes, regravadas por
bandas novas e antigas fala por si mesmo
Valeu Steve,
esperamos te ver em breve por aqui, abaixo da linha do Equador.
Senhor F - A
Revista do Rock
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