Mais um ano iniciava – 1973. O que faltava para o
Slade conquistar? Austrália, Japão, Alemanha, Escandinávia, todos estava
nas mãos do grupo. As paradas de sucesso eram deles. Mas e a América? Este
era o mercado. Em 1972, os impostos britânicos "mordiam" 83% dos ganhos.
Sucesso nos Estados Unidos significaria lucros maiores, sem os altíssimos
descontos. Ah, George Harrison era mesmo um visionário, com sua ‘Taxman’,
de 1966!
Como a Polydor americana simplesmente lançava os
discos do grupo sem nenhuma divulgação, Chas Chandler decidiu não renovar
o contrato de distribuição e assinar com a poderosa Warner Brothers. A
invasão americana estava sendo preparada. Enquanto isso, um show no
lendário London Palladium acontecia. Era parte das comemorações pela
entrada da Inglaterra no Mercado Comum. Segundo a lenda, durante o show do
Slade, os balcões superiores balançavam como uma gangorra, devido aos
pulos dos fãs. Mas o pior aconteceu com os assentos da platéia: metade
estava destruída após o show. O grupo nunca mais foi convidado para tocar
no Palladium.
Outra jogada de Chandler estava sendo posta em
prática. No ano anterior, o compacto ‘Mama Weer All Crazee Now’ entrou nas
paradas direto no segundo lugar. Ou seja, que tal bater os Beatles e Elvis
Presley, que tinham compactos que entraram direto em primeiro lugar?
Naqueles dias, um artista podia ter um acetato de seu novo disco tocando
nas rádios três semanas antes de seu lançamento. A estratégia do Slade
seria obter o máximo de propaganda antes do lançamento oficial do novo
compacto, gerando pedidos antecipados para o mesmo. Na Inglaterra, os
novos lançamentos aconteciam tradicionalmente nas sextas-feiras, com os
picos de vendas sendo na própria sexta e no sábado. O grande programa
musical da TV era o Top Of The Pops, exibido nas quintas-feiras. No
programa eram exibidos os clips das músicas que estavam nas paradas de
sucesso. A jogada era obter maciça execução nas rádios, para o grupo
aparecer no programa divulgando o novo compacto na véspera de seu
lançamento! Como a parada das vendas era compilada na segunda-feira, de
noite, eles teriam dois dias e meio de vendas para entrarem direto em
primeiro lugar. E o disco ‘Cum On Feel The Noize’ entrou direto em
primeiro!!! E ficou nas paradas, em primeiro, por três semanas.
Em Maio, o grupo embarca para os EUA. Dave Hill foi
"moldado" para as platéias americanas: uma roupa com largas ombreiras,
lembrando o uniforme dos jogadores de futebol americano. Entrevistas em
estações de rádio, jornais, e não havia um hit para promover (graças à
incompetência da Polydor). Mas os shows eram um relativo sucesso, já que
tocavam em teatros para 2 mil pessoas, sempre lotados. Em Nova Iorque eles
tocaram duas noites, na Academy of Music. Na platéia estavam os membros do
KISS, do Twisted Sister e da Billy Squier Band. Mas estavam longe da
histeria causada na Europa. Talvez pelo fato de seus discos serem "pesados
demais" para as AMs (que só tocavam "As 40 Mais" das paradas), e "leves
demais" para as FMs (que só tocavam músicas de LPs). Segundo comentários
do Slade hoje, se naquela época existisse a MTV, as coisas teriam sido
diferentes na América.
De volta à Inglaterra, o novo compacto, ‘Skweeze Me,
Pleeze Me’, também entrou direto nas paradas em primeiro lugar, fazendo do
Slade o primeiro (e único!) artista a ter dois discos sucessivos entrando
direto nas paradas em primeiro lugar. Mas a maior consagração viria
durante a turnê inglesa, iniciada em junho. No dia 1o de julho,
um domingo, o grupo foi tocar no famoso Earls Court Exhibition Centre.
Eles haviam reservado o local com antecedência, mas foram o segundo grupo
de rock a tocar lá. David Bowie e seus Spiders From Mars tocaram em junho,
show que foi um tremendo fiasco. Mas para o Slade as coisas foram muito
diferentes. Haviam mais cartolas (e fraques vermelhos!!) naquele domingo
do que em qualquer evento social. Os 18 mil fãs foram à loucura com o
mestre de cerimônias e cantor-com-voz-de-gralha-esganiçada Noddy Holder,
com o baixo arrebatador de Jim Lea, com os riffs e a purpurina de Dave
Hill, e com a marcante bateria de Don PowellOs quatro meninos de
Wolverhampton eram agora ídolos nacionais.
Mas a vida prega peças nas pessoas. No dia 4 de
julho, o baterista Don Powell sofre um trágico acidente de carro, onde sua
namorada morre e ele fica em coma por vários dias. No fim de semana
seguinte o grupo havia acertado a participação em um show na Isle of Man.
Não havia como desmarcar e o irmão de Jim Lea, Frank, tocou bateria neste
dia. No final de agosto o grupo embarcou para mais uma turnê americana,
com Don Powell de volta à bateria! As únicas seqüelas do acidente, que
persistem até hoje, são lapsos de memória (ele precisa anotar tudo o que
acontece, pois vai esquecer em seguida!), e a total perda do paladar!
Cenas hilárias aconteciam nos shows, pois Don parava e perguntava para
Jim: "o que eu toco agora?," totalmente em pânico pela amnésia. A resposta
era: bang, bang, bang!!! Durante a passagem por Nova Iorque, o grupo
gravou um novo compacto, no Record Plant Studio, na mesma semana em que
John Lennon estava gravando o disco ‘Mind Games’. Jim Lea ficou eufórico
em usar o mesmo piano que John!!!!
E o grupo, em pleno verão americano, gravou ‘Merry
Xmas Everybody’, cantando a maior parte do refrão nos corredores do
estúdio Receberam comentários do tipo "que ingleses babacas", por parte
dos nova-iorquinos presentes. Foram sabotados na turnê pela J. Geils Band,
que no único show onde os executivos da Warner foram assistir ao Slade, em
Long Beach, apagou as luzes principais e o aterramento idem, resultando em
microfonia, sombras e a má impressão dos executivos. Tudo foi religado
para o show deles.
Na Inglaterra, o novo compacto ‘My Friend Stan’ "só
chegou ao segundo lugar". Mas a coletânea ‘Sladest’, foi primeiro lugar
durante três semanas. Mas o grande sucesso veio em dezembro: ‘Merry Xmas
Everybody’ entrou direto em primeiro lugar, o terceiro do grupo a fazê-lo,
tornando-se um recorde imbatível até os dias de hoje!
Este disco, que vendeu 300 mil cópias é, ao lado de
‘Happy Christmas’ (War Is Over), de John Lennon, a música padrão de Natal,
tocada nas rádios até hoje na Inglaterra.
Discografia – Parte 3
CS – Cum On Feel The Noize / I’m Mee, I’m Now, An’ That’s Orl (Polydor
2058 339) – 23/02/1973
CS – Skweeze Me, Pleeze Me / Kill ‘Em At The Hot
Club Tonite (Polydor 2058 377) – 22/06/1973
CS – Slade Talk To "Melanie Readers (Lyntone LYN-2645) – 08/1973
CS – My Friend Stan / My
Town (Polydor 2058 407) – 28/09/1973
LP – Sladest (Polydor 2442 119) –
28/09/1973
CS – Merry Xmas Everybody / Don’t Blame Me (Polydor 2058
422) – 07/12/1973
* Ricardo Pugialli é autor do livro 'No Embalo da Jovem Guarda' e
também especialistas em Beatles e rock inglês, especialmente glam
rock.
Senhor F - A Revista do
Rock
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