SLADE parte 2
 
     

Os skinheads agora são os Reis do Glitter 


* Ricardo Pugialli

So cum on feel the noize
Girls grab the boys
We get wild, wild, wild
At your door!
”...

 

Agora não tinha mais jeito. Os críticos não podiam torcer a cara e ignorar o que a juventude inglesa está gritando a todos os pulmões. O disco Slade Alive catapultou o grupo para o estrelato e eles agora ditavam a moda! 

 

              O compacto Coz I Luv You, de Outubro de 1971, foi o primeiro do grupo a ocupar o topo das paradas. E o primeiro a gerar polêmica. O título original era Because I Love You, pomposo e arrogante, segundo o empresário Chas Chandler. O Slade é uma banda "do interior", de garotos simples, por isso devem falar como seus fãs. Então, grafaram o título foneticamente. Chuva de protestos dos professores ingleses, pela possível "má influência" exercida sobre a juventude. Neste disco, o baixista Jim Lea já mostra seu talento como arranjador, incluindo belas frases e solos com seu violino.

   Mas o ano do Slade seria 1972. Logo em Janeiro lançam mais um compacto, Look Wot You Dun. Mais polêmica com os professores. Em duas semanas atingiu o quarto lugar nas paradas, permanecendo no mesmo posto por mais duas semanas seguidas.

    A grande cartada de Chas Chandler foi armada para Fevereiro: o grupo alugou por três noites o novíssimo estúdio Command Theatre, em Piccadilly Circus, onde gravariam a nata, la créme de la créme, de seus shows. A cada uma das noites 300 membros do fã clube lotam o simpático auditório do estúdio, dando a resposta perfeita à energia do grupo. As sete músicas escolhidas foram a irretocável amostra do poder do grupo ao vivo. O repertório completo naqueles dias era Hear Me Calling, In Like A Shot (From My Gun), Look Wot You Dun, Keep On Rockin', Move Over, Know Who You Are, Lady Be Good, Coz I Luv You, Darling Be Home Soon, Get Down And Get With It, Good Golly Miss Molly e Born To Be Wild.

    Lançado em Março, o disco foi um tremendo sucesso das paradas, ficando em primeiro lugar por várias semanas. Depois, entrava e saía das paradas como "uma bola de pingue-pongue". Até hoje o guitarrista Alvin Lee, do Ten Years After, agradece os royalties recebidos por Hear Me Calling.

    As suíças de Noddy Holder cresceram e passaram a ser sua marca registrada, assim como a cartola de espelhos, as calças xadrez e o fraque vermelho (foto 3). Sua voz esganiçada e sua presença de palco eram o ponto alto dos shows. Nada mais de coturnos, calças pretas, suspensórios ou cabeças raspadas. O baixista Jim Lea (foto 4), passa a se apresentar com ternos "lamê" prateados ou dourados, além de ostentar uma bela cabeleira. Mas o excesso veio com o guitarrista solo, Dave Hill (foto 5). Ele cortou a franja no alto da testa, jogou purpurina em todo o corpo, passou a usar roupas extravagantes e, como símbolo máximo do glitter rock, a guitarra SuperYob.

     O grupo excursiona por toda a Europa, onde seus discos são primeiro lugar das paradas. Um novo disco é lançado em Maio, Take Me Bak 'Ome. O baixista Jim Lea confessou que ao aproveitar esta antiga música ele adicionou uma ou duas frases de Everybody's Got Something To Hide..., dos Beatles. No final do mês veio a consagração do Slade. Eles se apresentaram no Great Western Festival, em Lincoln, ao lado do Roxy Music, Beach Boys e Faces. Até então o Slade era um grupo de clubes, apesar do sucesso. Chas Chandler achava que eles só deviam se apresentar em locais que pudessem lotar duas vezes. Mas ali, em frente a 50 mil jovens alucinados eles "roubaram" o festival e as páginas dos jornais e revistas especializadas.

     Na semana seguinte, Tak Me Bak 'Ome era primeiro lugar das paradas! Este disco trazia, pela primeira vez, os ingredientes que todos os discos do grupo apresentariam em seguida: muito eco, palmas, batidas de pé, multidão gritando o refrão, tudo para dar um "molho" de gravação ao vivo.

     A briga agora nas paradas era dividida com Marc Bolan & T.Rex, Sweet, David Bowie, Mott The Hoople, Gary Glitter e Elton John. A a vantagem do Slade era evidente. O compacto seguinte, Mama Weer All Crazee Now, de Agosto, entrou direto em segundo lugar da parada! Na semana seguinte e nas duas subseqüentes era primeiro lugar!

    Em Novembro, após excursões pela Inglaterra com Suzi Quatro e Thin Lizzy, pelos Estados Unidos com Humble Pie e J. Geils Band, e pela Australia com Caravan e Status Quo, outro disco foi lançado. Gudbuy T'Jane entra em quarto lugar nas paradas. Pula para terceiro e, na terceira semana atinge o segundo lugar. Não conseguiu alcançar o primeiro lugar pois Chuck Berry acabava de lançar My-Ding-A-Ling, um sucesso fulminante! 

    Natal chegando e, para coroar o ano, e "abiscoitar" as vendas de Papai Noel, é lançado seu quarto LP, Slayed? Este disco foi igualmente primeiro lugar. Nele estavam as favoritas de seus shows, Move Over e Let The Good Times Roll, além dos últimos compactos de sucesso. A voz de Noddy Holder está impecável neste LP, mais esganiçada do que nunca. Jim Lea simplesmente "arrasa" com seu baixo solando o tempo todo. Dave Hill faz as honras de solista, com belos fraseados e riffs. Para manter a cozinha pulsando, Don Powell marca cada frase de Lea e Hill. O grupo está perfeito, rumo ao sucesso ainda maior!

Agora é só esperar por 1973 e gritar...

 

Venham Sentir o Barulho!

    

Discografia (segunda parte)

> Slade

- CS Look Wot You Dun / Candidate (Polydor 2058 195) - 1/72

- LP Slade Alive! (Polydor 2383 101) - 3/72

- CS Tak Me Bak 'Ome / Wonderin' Y (Polydor 2058 231) - 5/72

- CS Mama Weer All Crazee Now / Man Who Speaks Evil (Polydor 2058 274) - 8/72

- CS Gudbuy T'Jane / I Won't Let 'Appen Agen (Polydor 2058 312) - 11/72

- LP Slayed? (Polydor 2382 163) - 12/72


* Ricardo Pugialli é autor do livro 'No Embalo da Jovem Guarda' e também especialistas em Beatles e rock inglês, especialmente glam rock.

 

Senhor F - A Revista do Rock
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