"Agora vou cheirar ‘rapé’, que esta poeira não está
dando pé! Este era o carro chefe naquele final de 1978. Vestibular
chegando, o colégio nos segurando de 7 da matina às 7 da noite, a ditadura
militar correndo solta, e o Joelho de Porco faria nova temporada no teatro
Tereza Rachel, o Terezão, em Copacabana. Os shows iriam do dia 18 ao dia
30 de dezembro.

Escolhemos o dia 26, após a passagem de Papai Noel,
para termos uma noite de "muito som e curtição" (ah ... as gírias da
época!). Os jornais estampavam as fotos promocionais do grupo, maquiados
como o KISS, exatamente como no ano anterior. A única mudança era nos
ternos, agora brancos, em contraste aos pretos de 1977.
O Joelho de Porco foi um dos pioneiros do humor no
rock brasileiro, chegando a apregoar o punk antes dele ter virado ‘moda’
no Brasil. Pelo grupo passaram (entre outros), os seguintes músicos:
Walter Baillot (guitarra), Próspero Albanese (vocais), Ricardo Petraglia
(vocais), Juba Gurgel (bateria) e Mozart Mello (guitarra).
Como eu e meu eterno cúmplice de rock’n’roll, Robert, nos metíamos a
escrever um jornalzinho de música no colégio, repleto de Purple, KISS,
Sweet, Rush, Zeppelin, etc, chegamos de tarde no Terezão, para uma
‘entrevista’ com o grupo. Na maior ‘cara dura’, sem conhecer ninguém.
Para nossa surpresa, o grupo havia mudado
completamente desde a turnê do ano anterior. Nos vocais continuava o
argentino Billy Bond, com toda sua loucura e bom humor, ex-integrante do
grupo Humauaca e que tinha em sua bagagem a produção do primeiro
disco-solo de Ney Matogrosso. No baixo e vocais, o único membro fundador
do Joelho, o paulista Tico Terpins, egresso da segunda formação dos
Baobás, tendo entrado na vaga de Arnolpho Lima ‘Liminha’ Filho, futuro
Mutantes. E pronto... os demais integrantes eram novidade misturada com
surpresa.
Os membros do Casa das Máquinas, importante grupo de
‘Glam/Glitter Rock’ brasileiro que havia sido dissolvido por causa de um
infeliz incidente envolvendo o grupo e funcionários da TV Tupi, agora
estavam no Joelho de Porco. Na bateria, Netinho (The Clevers, Os
Incríveis), na guitarra, Pisca, e nos teclados, Marinho.
O único músico que apareceu para ensaiar cedo foi
Pisca. Demonstrando uma enorme competência e profissionalismo, ele regulou
o som de sua guitarra, testou a talk-box (ecos de Peter Frampton) e, em
seguida, afinou a bateria de Netinho, deu altos solos, passou para o
baixo, regulou tudo, enfim, preparou o show (tudo ficou gravadinho em meu
fiel K-7). Logo chegaram Netinho e Tico Terpins, depois Billy e por último
Marinho. Que entrevista que nada, assistimos ao grupo detonar ‘Day
Tripper’, ‘Satisfaction’, clássicos do ‘Brazilian Rock’ e, pasmem, até
músicas do Joelho de Porco. Foi hilário ouvir um dos músicos gritar: "Pô,
cadê a minha maconha?" Ele estava falando de um "tijolo" que Tico havia
escondido atrás de nossas cadeiras.
Felizes com o que ouvimos, partimos para um merecido
banho e preparação para a ‘noitada’. Nova fita foi colocada em meu K-7,
bem como um rolinho novo de filme foi para a minha querida Olympus.
Trouxemos à tiracolo mais dois colegas do colégio. Um maluco como nós,
Santiago, e outra fazendo seu debut no rock and roll, Carla.
Estávamos parados na fila para entrar, quando
Netinho me reconhece e fala: "pode vir, entra com a gente". Mas faltava um
maluco e ficamos ali, junto com a massa que já urrava. Entramos e nos
aboletamos na quinta fila. O Terezão era demais, totalmente tosco,
desprovido de luxos, paredes nuas, palco baixinho mas com uma vibração
inesquecível. Grandes shows aconteceram lá, de Mutantes a Novos Baianos,
passando pelo Terço, Rita Lee & Tutti Frutti, Made In Brazil, etc.
No som ambiente, uma musiquinha caipira ecoava, ‘Trota trota cavalinho,
vem depressa, vem depressa, trazendo o meu benzinho...’ E a galera urrava.
De repente, apagam-se as luzes. Gritaria geral, assobios, e a dúvida de
como será o show. Punk como o do ano anterior, com brigas entre Billy e a
platéia?
De repente, Marinho começa a tocar uma ensurdecedora
introdução, sideral, viajante, idêntica a que fazia com o Casa das
Máquinas. Seu sintetizador fazia as paredes do Terezão tremerem. Na
penumbra, vemos os músicos parados, e a maconha no teatro fazia lembrar o
fog britânico. Mas a introdução demorava e começaram os apupos: "Como é
que é porra? Começa f.d.p.! F.D.P., F.D.P."
Era a ovação que o Joelho esperava. Começava ‘São
Paulo By Day’. Netinho e Pisca roubaram a cena logo de início com belos
solos dos dois. Depois seguiram-se ‘O Rapé’, ‘Outra Volta’, ‘Aeroporto de
Congonhas’ e a pausa para Billy apresentar os músicos. O cantor era um
caso à parte, com presença de palco e senso de humor que faziam dos shows
do Joelho uma experiência inesquecível.
Depois, veio ‘Feijão Com Arroz’ e a talk-box de
Pisca nos brindou com belos solos e pérolas do tipo "Vai tomar no c., seu
f.d.p." E a galera delirava, este era o Joelhão!!! Depois, um alienígena
na platéia atirou uma garrafa no palco. Billy mandou o canhão de luz
iluminar o celerado e convidou-o a subir no palco. Alguns elogios ao rapaz
e sua mãe foram gentilmente proferidos pelo roliço cantor, que logo
devolveu-o com muita delicadeza de volta à platéia.
Na seqüência, veio ‘México Lindo’ (originalmente
chamada Golden Acapulco), ‘Rio de Janeiro City’ e ‘Boeing 723897’. De nada
adiantaram os gritos de ‘Mardito Fiapo de Manga’. O Joelho encerrou o
show, deixando todos com aquela sensação de "comi e quero repetir". E foi
o que fizemos no dia seguinte...
Discografia
- CS - Se Você Vai de Xaxado, Eu Vou de Rock And
Roll / Fly America (Sinter-Phonogram) – 1973
- LP – São Paulo – 1554/Hoje (Crazy CGE 121 007) – 1976
- LP – Joelho de Porco (Som Livre 403.6147)
– 1978
- CS – Outra Volta / O Rapé (Som Livre 401.6137) – 1978
- LP - Saqueando A Cidade (Lira Paulistana / Continental 2.01.503.001/2) - 1983
- LP - 18 Anos Sem Sucesso (Eldorado 131.88.0537) - 1988
* Ricardo Pugialli é autor do livro ‘No Embalo da Jovem Guarda’ e
editor de site homônimo.
Senhor F - A Revista do
Rock
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